Radiohead: Shake Your Booty!

Um dos vários vídeos a remixar o novo clipe do Radiohead, Lotus Flower (confira toda a dança de Thom Yorke abaixo).

Mal saiu, o novo disco do grupo, King of Limbs, foi bastante malhado pela crítica musical. É a avaliação miojo. Nunca me interessei em opiniões apressadas, mas sim em ler uma abordagem mais aprofundada, mesmo que tenha de esperar um pouco mais. Posso até discordar, mas vejo propriedade nos argumentos. Noticiar o lançamento é uma coisa, mas entregar uma crítica tão rapidamente, feita quase em “tempo real”…

Chama-me atenção a polarização das opiniões. Ou é uma obra-prima, ou algo inaudível. Uns, só enxergam pontos positivos. Outros, exercem toda sua ironia destruindo o álbum. Desse último grupo, alguns estão especialmente felizes com a queda do aluno pretensioso, que enfim tropeçou. Ou pior: seu êxtase decorre do fato de terem desmascarado a falta de conteúdo do queridinho da turma.

Talvez a decepção com o novo trabalho seja uma questão de perspectiva. O cineasta Fernando Meirelles já afirmou que não curte muito ler críticas porque os “especialistas” da área não julgam a obra entregue pelo artista, mas sim a que esperavam. Muitas vezes, querem mais do mesmo, obras calcadas em ideias já apresentadas pelo artista.

Há também falta de conhecimento. O Radiohead já vem lançando discos experimentais há um bom tempo. Ao contrário de outras bandas, como o Sonic Youth, não há distinção de lançamento, tudo faz parte da discografia “principal” da banda. Como não se trata de um trabalho “paralelo”, o disco ganha ampla divulgação.

O racha entre fãs e críticos não havia ocorrido ainda porque o Radiohead toca um som de vanguarda “palatável”. A experimentação estava diluída numa sonoridade acessível.

Dizer que o Cabeça de Rádio entregou, dessa vez, fiapos de músicas, ideias inacabadas, rascunhos sonoros? Há tempos classificam a música da banda inglesa como post rock. Curiosamente, muitas bandas desse gênero -como Stereolab, Tortoise, Godspeed You! Black Emperor, Mogwai e Sigur Rós- são amplamente aclamadas pela crítica.

Essa rapidez em resenhar um disco tão novo me fez lembrar uma crítica da Bizz sobre The Bends, o segundo disco do Radiohead. Na época do seu lançamento, a finada revista entrou num papo sobre o álbum ser previsível, não ser tão bom quanto o anterior… Agora, muitos que falaram mal de King of Limbs afirmaram que o disco não mantem… o brilho do início da carreira da grupo.

Não para aí. No lançamento de Ok Computer, o clássico da banda, muitas das análises diziam que não era um disco fácil, que precisava de várias audições para você começar a sacar a obra. Não seria o caso novamente? Ademais, se olharmos para trás, veremos tantos casos de obras que não foram compreendidas na época de seu lançamento…. E o que falar de Kid A? Muito contestado quando foi lançado, o álbum foi figura fácil em várias listas de melhores do ano.

Para os descontentes, há um alento. Há boatos de que The King of Limbs seria um disco duplo. Ou então torcer para que se repita a história. Se Kid A dividiu opiniões, menos de um ano depois a banda lançou o mais acessível Amnesiac.

Gramática da criação

E o que achei do disco? Ainda estou digerindo. O Radiohead tem crédito comigo. Todavia, por mais que admire bandas que têm coragem de se arriscar, o experimentalismo por si só não me atrai. Acho as inovações de Hermeto Pascoal divertidas, mas não me interesso em conferir um show dele. Ou mesmo escutar seus discos. Não sou músico, então o que me interessa como fã é escutar uma bela música. Obedecendo, claro, um filtro bastante pessoal. Interessa-me a relação afetiva que tenho com a obra artística, o que muitas vezes é mais importante que seu valor cultural. De preferência, que me permita se contorcer, como faz Thom Yorke no clipe abaixo, numa pista de dança.

Todavia, para analisar a obra de forma mais ampla, é importante ir além. É necessário analisar o resultado do trabalho, as conexões com outras obras, o tipo de inovação que ele traz… Pode não oferecer um som palatável, mas trazer inovações técnicas, abordagens diferentes… Ademais, pode não fazer “sentido” para o público comum, mas ser acolhido por outros artistas, influenciá-los. Sua importância se amplia para além do álbum. Esse seria o papel de um verdadeiro especialista, alguém que tem conhecimento específico. É isso que espero de um especialista ou estudioso da área. Mas para isso precisa-se de bagagem cultural e… TEMPO.

Veja também
Radiohead, “The King Of Limbs”, second thoughts


Radiohead – Lotus Flower